Depois de 3 anos fora do Brasil, passando quase 2 anos no México, e já há mais de um ano na Europa, pude notar uma série de diferenças na maneira como o brasileiro encara o dia-a-dia no trabalho em comparação com profissionais de outros países. Creio que dentre as principais e marcantes características se destacam a falta de iniciativa e de produtividade do brasileiro.

Sim, ao trabalhar com mexicanos, colombianos, espanhóis, norte-americanos, alemães, ingleses, indianos a diferença deles para os brasileiros é impressionante. O brasileiro é, de longe, o menos produtivo e mais procrastinador de todos com quem tive oportunidade de trabalhar (claro que isso é uma generalização, mas estou falando de grupos e não de casos isolados).

Tive a oportunidade, inclusive, de trabalhar com um time de brasileiros em um projeto com times de outros países e, nem assim: os brasileiros foram os que apresentaram menor produtividade, inclusive incomodando o cliente, que era americano, a ponto deste conversar comigo sobre o desempenho deles e solicitar a substituição de 2 (dos 4 que viajaram aos Estados Unidos).

O latino, em geral, traz para o ambiente de trabalho a postura vitimista e crítica que nossas sociedades experimentam  em todos os setores. São os que menos sabem separar o lado pessoal do profissional e tomam como “ofensa” qualquer “feedback” negativo recebido no trabalho, de chefes ou de colegas.

Somos, de longe, os que mais buscamos desculpas para não completar tarefas, e dos que mais tentam esconder problemas e dificuldades. Nosso péssimo hábito de criticar colegas de trabalho, dentro do ambiente de trabalho ou falar de vida pessoal, também é algo bastante raro em outros países.

Pontos positivos? Sim, existem: acredito que nenhum profissional como o brasileiro consegue resolver as coisas de forma mais criativa, improvisar e sabe “se virar” com pouco. Por outro lado, esse “jeitinho”, nem sempre é necessário, ou a maneira mais efetiva de solucionar os problemas.

Conversando com alguns jovens que entraram agora, ou que irão entrar no mercado de trabalho no Brasil em breve, outro susto: nem mesmo iniciaram suas carreiras e já se queixam das dificuldades, querem uma ascensão “mágica” a postos gerenciais e altos salários, sem passar pelos estágios iniciais normais da carreira.

O conteúdo de nossos cursos universitários de graduação e pós graduação (que no Brasil bizarramente andam classificando qualquer curso de pós graduação agora como “MBA”) é extremamente pobre e fraco, em comparação com muitos dos cursos que analisei em universidades americanas e européias. Com poucas exceções, o ensino no Brasil virou um grande supermercado, onde as pessoas escolhem um título de MBA pomposo e pagam para recebê-lo.

É extremamente difícil explicar para um estrangeiro, por exemplo, que em nosso país, pessoas fizeram de “prestar concurso público” uma “profissão”, batizada de “concurseiro”. Ao tentar explicar isso para alguns europeus, me olharam com um ar de surpresa que eu, sabendo da nossa realidade, já havia me acostumado.

Outra falácia que muitas vezes escuto é que o brasileiro “tem empreendedorismo no sangue” – a maior parte dos brasileiros que empreenderam que conheço o fizeram muito mais por necessidade do que por iniciativa própria. Existem os casos, sim, dos que buscaram empreender e tiveram sucesso com isso, mas o brasileiro ainda está anos luz da capacidade empreendedora e de planejamento dos seus pares em outros países.

Empreendedorismo aqui é ensinado na escola, nas universidades. Não se confia somente no conhecimento empírico. Não só de criatividade e transpiração deve “nascer” o empreendedor. Conhecimentos essenciais de administração e de como operar um negócio tem de ser aprendidos por aqueles que desejam empreender.

Não vou entrar neste texto, também, na questão da falta de iniciativa ante ao desastre político e econômico que estamos vivendo, porque seria covardia colocar isso em pé de comparação com o senso de coletivismo que é notável aqui na Europa.

Ao ler esse texto você (se você chegou até aqui) deve estar pensando: pronto, mais um brasileiro esnobe que mudou do Brasil e resolveu criticar tudo e todos do país: não, essa não é a proposta deste texto. A proposta deste texto é convidar você a refletir.

Convidar você a ler algumas verdades sem julgar e fazer um exercício de auto-reflexão. Exercício esse que eu mesmo fiz depois de levar já algumas “chacoalhadas” aqui do outro lado do Oceano, justamente por ter vindo com alguns dos vícios da nossa cultura.

O profissional brasileiro precisa, urgentemente, mudar sua atitude e abandonar a postura vitimista que está crescendo cada vez mais em nossa sociedade. O único culpado pelos seus insucessos é você mesmo. Só você pode trabalhar para obter resultados diferentes.

Se a geração que está nos 30, hoje, já está sofrendo revezes por conta desse tipo de postura, imagino como sofrerá a próxima geração, que cresceu em um ambiente muito mais favorável a colocar-se em um pedestal e não reconhecer seus próprios erros.

É hora de acordar.

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